
Maria do Carmo
"Chamavam-nos fascistas e latifundiárias"
Faz parte das poucas mulheres que viveram uma vida tranquila e sem grandes restrições durante a ditadura salazarista. Maria do Carmo tem 71 anos e nasceu a 7 de março de 1953. Fruto de uma relação entre pequenas aldeias, de mãe doméstica e pai dono de uma mercearia, Carmo cresceu no concelho de Oliveira de Azeméis.
Maria do Carmo, desde muito cedo, teve a certeza da sua verdadeira vocação. Era a aluna mais hábil a resolver contas e problemas matemáticos e hoje é economista. Carmita, como muitos lhe chamam, define-se desta forma: "Sou comunicativa e estou sempre pronta a ajudar os outros", oriunda de uma família muito moderna para a época e "educada como uma princesa".
Considera que o 25 de abril de 1974 foi dos dias mais caóticos da sua vida. Estava numa aula de Estatística, na faculdade de Economia do Porto, quando lhe informaram que deveria ir pra casa, pois estava a "dar-se uma revolução". Era estudante na época e foi vista como parte dos salazaristas: "chamavam-nos fascistas e latifundiários. Dias depois do golpe militar, revolucionários fizeram-nos uma espera na faculdade para nos dar uma tareia".
Maria do Carmo, religiosa e devota de alma e coração, sente ter sido uma pessoa privilegiada toda a sua vida, acredita que pôde ter sempre sonhos e possível realizá-los, como ter um piano e aprender a tocar. Filha única, Carmita, cresceu com uma prima que veio viver consigo com apenas três anos de idade: "Ela sempre foi tratada como uma filha e o meu pai fez questão de lhe pagar a licenciatura." "É como uma irmã pra mim" , refere Maria do Carmo.
