
"Serem livres mas com sentido de responsabilidade"
Entrevista a Maria do Carmo, Mulher de Abril
50 anos se passaram desde o célebre acontecimento, que revolucionou a vida de muitas mulheres. O 25 de abril de 1974 foi uma porta que se abriu para o papel da figura feminina começasse a ter mais relevo na sociedade. Segundo o Censo de 1970, enquanto a taxa de atividade profissional dos homens chegava aos 89%, a das mulheres era de pouco mais de 25%.
Maria do Carmo tem 71 anos e reside no concelho de Oliveira de Azeméis. É economista há 47 anos e considera-se uma privilegiada pela vida tranquila e muito pouco limitada que teve. A economista, em entrevista ao O Grafia, recordou um dos dias mais turbulentos da sua vida.
O Grafia: Para todas as mulheres da época, o dia do 25 de abril foi experienciado de forma diferente, o impacto do fim da ditadura salazarista não foi uniforme pelo país. Maria do Carmo pertence a uma família financeiramente estável. Assim sendo, como foi vivido este dia de mudança?
Maria do Carmo: Esse dia foi muito turbulento! Eu estava numa aula prática de Matemáticas Gerais, nas águas furtadas da faculdade de Economia do Porto, à tarde, e bateram à porta da sala. Uns minutos depois, o meu professor entrou pálido e disse para, calmamente e sem receios, cada um de nós ir para as suas casas, que estava a acontecer uma revolução. Entretanto, anunciaram que as pontes iam fechar e eu e uma colega fomos ao nosso apartamento do Porto buscar umas roupas. Deparamo-nos com o comércio todo a fechar, os chamados revolucionários a atirar pedras aos bancos e aos edifícios mais importantes e pessoas a fugir. Estava tudo a ser destruído e vandalizado. Era tanto movimento que mal via a minha colega, nós só queríamos passar a ponte para ir para casa. Quando cheguei a Oliveira de Azeméis estava tudo calmo, algumas pessoas nem sabiam que estava a acontecer uma revolução.
Nos dias seguintes ainda se notava a rebelião dos antisalazaristas e foi muito complicado voltar às aulas, porque não nos deixavam entrar e chamavam-nos fascistas e latifundiárias. Recordo-me até, que fiz uma frequência de uma cadeira semestral, sem ir às aulas, porque eles faziam-nos esperas à porta da universidade para nos agredir.
O Grafia: Antes desse acontecimento e mesmo nos dias seguintes, tal como referiu, sentia a sua liberdade e a das outras mulheres à sua volta, condicionada?
Maria do Carmo: Eu não sentia tanto, mas notava esse condicionamento nas minhas amigas. As mulheres terminavam a escola primária e iam logo trabalhar. O vencimento era logo canalizado para os pais, portanto elas não tinham liberdade. As mulheres que já eram casadas, eram totalmente dependentes. Antes do 25 de Abril, pouca indústria havia e, por isso as pessoas trabalhavam no campo, principalmente as mulheres das aldeias.
O Grafia: Tendo em conta a privação e a submissão da mulher, que fez referência, como é que vê a perspetiva da mulher portuguesa durante a ditadura?
Maria do Carmo: Eu considero-me uma privilegiada em tudo naquela época, a mulher não podia ter sonhos. Eu acho que se perdeu muito bons economistas, médicos, engenheiros, juristas entre tantas outras profissões. Não havia apoios do Estado. A maior parte acabava de nascer e já ia para os campos, não havia tempo para sonhar no que se queria ser profissionalmente, elas não conheciam outras áreas do saber. A vida delas era o trabalho no campo.
O Grafia: Após 50 anos da revolução e da vida árdua no campo, considera que a mulher é mais livre, hoje? Quais os aspetos que notou maior diferença?
Maria do Carmo: Sim, a mulher é mais livre. Começou a ter independência, surgiram mais indústrias e as mulheres tornaram-se empregadas fabris, abandonaram a vida do campo. Inicialmente, ainda tinham de entregar o dinheiro aos pais, mas aos poucos as coisas foram mudando, as mulheres que eram dependentes dos maridos deixaram de o ser, pois tinham agora um emprego, como eles.
O Grafia: Para a Carmo, e através da sua experiência, o que é a liberdade?
Maria do Carmo: Felizmente, para mim a liberdade, nunca me foi muito condicionada, mas acho que o sentido de liberdade tem vindo cada vez mais a ser deturpado. Faz-se o que não se deve fazer e as faltas de respeito ao outro são cada vez mais.
O Grafia: Afim dessas faltas de respeito não continuarem e a liberdade não voltar a ser condiciona, que conselhos deixa às futuras mulheres da nossa sociedade?
Maria do Carmo : Serem livres, mas com sentido de responsabilidade! Procurem ser elas mesmas e que lutem pelos seus objetivos, sempre.

